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Cidade cheia de vida

A city full of life











Há qualquer coisa de mágico no Porto. Sei que é uma opinião pouco unânime. Há muita gente que simplesmente detesta o cinzentismo da cidade, projectado nas paredes graníticas, ruas apertadas, em alguma degradação da malha urbana e naquele clima que cheira a nevoeiro, chuva, frio e vento. A invicta, obviamente, nem sempre é cinzenta. Tem dias de sol bastante frequentes, cheiro a maresia, conversas em voz alta, boa disposição estampada nas vendedoras do mercado do Bolhão, sorrisos nas esplanadas e nuvens de cor trazidas pelos turistas que chegam aos magotes.
Tenho ido ao Porto imensas vezes nos últimos 20 anos e há, sem dúvida, uma transformação imensa. A primeira vez que estive lá, no verão de 1995, os bares da praça de Lisboa estavam a morrer, a baixa decaía a cada ano, o ambiente era deprimente. Entretanto, fruto de imensos investimentos e novas apostas culturais, a cidade foi rejuvenescendo. As obras do metro foram uma dor de cabeça durante quase uma década, contudo, retirados os andaimes e os taipais, o Porto revelou-se de novo. Uma nova geração de jovens começou a circular pela cidade, a sair para a rua, novos negócios floresceram e a pungente vida estudantil semeou novas ideias, desenhou novas montras e conceitos que hoje se disseminam pelos bares, lojas e restaurantes do centro histórico. A rua das Flores é linda, a Ribeira encantadora, São Bento a mais bonita estação de comboios do país, a livrariaLello sem comparação, o mercado do Bolhão catita, a rua de Santa Catarina exemplo único de como uma grande cidade pode e consegue manter negócios de rua.
Mas o que está a diferenciar o Porto de Lisboa é o seu buzz internacional. Eu tenho viajado bastante ao longo da minha vida e é mais frequente encontrar referências ao Porto lá fora do que de Lisboa. Lembro quando fiz um interrail, em 1999, ter encontrado estudantes italianos de arquitectura que estavam na Universidade do Porto e elogiavam o tipo de formação e o currículo daquela escola. Recentemente, na Austrália, uma guia turística ficou encantada por saber que sou português, mostrando-me, de imediato, uma revista de design internacional, que tinha acabado de comprar, onde uma loja centenária da rua de Santa Catarina aparecia na capa. “Eu vou a Espanha no verão e vamos depois de carro até Portugal”, segredou-me. “E faço questão de ir ao Porto”.
E vai acumulando prémios aqui e acolá. O Porto foi considerado, em 2014, o melhor destino Europeu, pela EuropeanConsumers Choice, organização sem fins lucrativos de consumidores e especialistas que organiza o maior evento de e-turismo na Europa; e, em 2013, a Lonely Planet colocou a Invicta no topo das suas preferências. Este ano, o mesmo guia voltou a colocar a cidade na lista das dez mais. Os turistas, claro, respondem à altura. A última vez que lá estive, em meados de setembro deste ano, durante o festival D’bandada, o ar vibrava de energia, quase que se sentia a estática das pessoas que andavam aos encontrões. Sair em S. Bento para os Aliados foi uma experiência surreal. A luz do sol projectava-se nos edifícios art deco; milhares de jovens deambulavam pelas ruas à espera dos concertos gratuitos; o ar ainda transpirava verão; e milhares de turistas introduziam elementos cosmopolitas às vielas e cruzamentos. Parecia que tinha aterrado em Amesterdão, Londres ou Paris. E isto dá um ânimo ‘do caraças’. Apeteceu-me ficar ali, deixar a minha pacata vida no campo e mudar-me para aquela cidade. Alugar um pequeno apartamento no centro histórico, descer até a uma esplanada no cais da Estiva e ficar por ali a admirar os barcos rabelo, a ponte D. Luís, a movimentação de gente, os cliques das câmaras fotográficas e sentir o cheiro a comida acaba de fazer enquanto o vento traz o cheiro do mar.
Tive que me contentar com uma visita rápida de um dia. Uma espécie de reconhecimento do terreno para mostrar à minha irmã as belezas desta cidade que ainda lhe era desconhecida. Descemos até margem norte do Douro, atravessamos a pé o topo da ponte até Gaia, descemos no teleférico, voltamos ao Porto, subimos até à rua de Santa Catarina, almoçámos uma francesinha, percorremos o centro histórico até ao mercado do Bolhão, Aliados e, de metro, fomos até à Casa da Música. Por sorte decorria a feira do livro no jardim do Palácio de Cristal e voltámos aos Clérigos para depois regressar a casa, com a alma cheia de saudades. Voltarei em breve, de certeza.

 

There is something magical about Porto. I know it's a unanimous opinion. There are many who simply hates the greyness of the city, designed with granite walls, narrow streets and expressed in some degradation of the urban environment and, of course, on his climate that smells like fog, rain, cold and wind. The unbeaten obviously is that the city is not always gray. Some frequent days are very sunny, there’s a smell a constant smell of sea in the air, a lot of people talking loud, happiness stamped in the beautiful faces of the the women sellers in Bolhão market, and clouds of color brought by the tourists arriving in droves.
I have gone to Porto many times in the last 20 years and there is undoubtedly a huge transformation. The first time I went there was in the summer of 1995. The bars of the Lisbon square were dying, the buildings decayed each year, the atmosphere was depressing. However, thanks to huge investments and new cultural stakes, the city is rejuvenating. Work on the metro was a headache for nearly a decade, however, removed the scaffolding and the shutters, Porto proved itself again. A new generation of young people began to travel around the city, went out to the street, created new businesses that flourished, drew new ideas, shops and concepts that today are spread throughout the bars, shops and restaurants of the historic center. Rua das Flores is beautiful, Ribeira charming, São Bento the most beautiful train station in Portugal, the Lello bookshop without comparison amazing, Bolhão market so happy and colorful, the street of Santa Catarina unique example of how a major city can keep business outside instead of big shopping malls, a trend in Portugal.
But what differentiates Porto from Lisbon, the nation capital, is its international buzz. I have traveled extensively throughout my life and it's more common to find references to Porto than Lisbon. I remember when I made a interrail, in 1999, I found Italian students of architecture who were at the University of Porto and praised the type of training and the curriculum of that school. Recently, in Australia, a tourist guide was delighted to know that I am Portuguese and showed me, immediately, an international design magazine, which she had just bought, where a centennial store from Santa Catarina street appeared on the cover. "I go to Spain the next summer and I will then drive to Portugal," she whispered to me. "And I must go to the Porto."
And there are, obviously the awards. Porto was considered in 2014 the best European destination, by the European Consumers Choice, a nonprofit consumer organization and specialists who organizes the largest e-tourism event in Europe. And, in 2013, Lonely Planet put it on the top of their preferences. This year was umber ten. Tourists, of course, respond in the same way. The last time I was there in mid-September of this year, there was a music festival that offered free concerts all over the city center, the air vibrated with energy, I almost felt the static of the people who I bumped to. Going from S. Bento to Aliados was a surreal experience. The sunlight projected up in the art deco buildings; thousands of youths roamed the streets; the air still exuded summer; and thousands of tourists introduced a cosmopolitan vibe to the scenario. It looked like it had landed in Amsterdam, London or Paris.
I wanted to stay here forever. For a moment, I wanted to leave my quiet countryside life and move to this city. Rent a small apartment in the historical center, go down to a terrace on the pier and admire the rabelo boats, the D. Luis bridge, the movement of people, the clicks of cameras and smell the food as it arrives to my plate.
I had to content myself with a quick one-day visit, enough to show it to my little sister. We arrived the north bank of the Douro, crossed the top of the S. Luís bridge to Gaia, descended on the chairlift, returned to Porto and walked up to Santa Catarina street, had francesinha for lunch, went through the historic center to the Bolhão market, cressed to Allies avenue and, by subway, we went to the Casa da Música. Luckily there was a book fair at the Crystal Palace gardens and after that we returned to Clerigos and then returned home with our souls full memories. I’ll be back soon, for sure.

“Já comecei a preparar o próximo disco”

“I’m already preparing the next record”



Cuca Roseta completa 34 anos a 2 de dezembro. É considerada uma das melhores fadistas da nova geração. Aplaudida pela crítica e com um público fiel além fronteiras, revela, numa entrevista que me concedeu recentemente, esta paixão que tem com o fado, as causas sociais que abraça e o momento em que se emocionou em palco.

António Dias: Como é que uma rapariga que fez parte de um coro na escola, ouviu música clássica e ópera em casa, foi vocalista numa banda pop portuguesa, curtiu rock entre amigos na juventude, acaba a trabalhar com um produtor de tango e a cantar fado?
Cuca Roseta: Bom, é esse percurso de vida que me faz acreditar que o destino queria mesmo trazer-me até aqui. Nada parecia apontar para o fado. Eu sempre gostei muito de histórias de encantar, de escrever, de olhar o mundo com uma perspetiva romântica e nostálgica, e quando ouvi fado pela primeira vez reconheci que este era o estilo musical no qual eu mais me revia. É quase uma forma de declamação cantada de poesia que traz à superfície sentimentos profundos de melancolia, saudade e amor. Quando cantava nos ‘Toranja’ a envolvência era diferente, havia outra preocupação. Mas, agora, fecho os olhos e o sentimento brota do meu âmago. As letras que canto transmitem algo muito íntimo e próximo da minha vivência, da minha verdade, por isso gosto muito de associar o fado à palavra verdade.

- Quando lançou o primeiro trabalho, com o Gustavo Santaolalla (vencedor de dois óscares), havia um plano bem traçado de conquistar novos mercados e, inclusive, ir a países onde nunca se tinha cantado o fado. A aposta foi ganha?
Sem dúvida! Na Geórgia, por exemplo. Foi uma experiência sensacional. Eles levantaram-se duas vezes num mesmo concerto para me ovacionar. Foi um dos poucos momentos em que me emocionei em palco. Eles admiram muito a nossa cultura, dizem que têm um tipo de música muito parecido com o nosso. No Equador aconteceu o mesmo. Lá, nem a Amália tinha ido! Não é incrível?

- Deve ser uma enorme responsabilidade ser tão nova e além de cantar algo tão profundo ainda ser representante da cultura portuguesa por sítios nunca antes cantados.
De facto é. Quase que somos embaixadores de Portugal. É do conhecimento generalizado que lá fora somos famosos pelo fado e futebol. Por isso, é importante ser uma dessas personalidades que vai a outros países levar um pouco da nossa cultura. E é extremamente gratificante ver a reação do público. Há quem comece a aprender português e a ter curiosidade pelo país porque um dia me ouviram cantar. É arrebatador.

- Encontra muita gente jovem nos concertos?
Sim, até crianças! O que é algo estranho, porque costuma-se dizer que é necessário alguma maturidade para entender o fado. Mas eu tenho famílias inteiras à minha frente e é emocionante vê-los a apreciar as minhas músicas, até porque as marchas acabam por introduzir um elemento alegre e divertido que os mais novos apreciam. Tenho mães que depois dos espectáculos vêm ter comigo e admitem que compram os meus discos a pedido dos próprios filhos.

- Isso é incrível, tendo em conta que há uma década o fado parecia quase morto!
É verdade. Eu faço parte dessa geração que nunca se interessou por este estilo. Onde eu cresci (Cascais) nunca se ouvia e quando comecei a frequentar casas de fado os meus amigos perguntavam-me se tinha ficado maluca. Havia um enorme preconceito. E graças aos novos fadistas, diferentes estilos de cada um e às boas músicas, o fado está a chegar às novas gerações. E isso é extremamente enternecedor.

- Já está a preparar o próximo álbum?
A maioria da minha energia está virada agora para a promoção deste último CD. Porém, já comecei a preparar algumas canções, a escrever e a reunir material. É um processo muito longo que demora quase dois anos e eu quero que o próximo trabalho seja ainda melhor que o anterior, mais maduro, e para isso é necessário pensar tudo com calma.

- Um dos sítios por onde vai passar é o Brasil.
Temos uma turné muito grande nos próximos meses. Vamos estar na Holanda, Bélgica, Itália. Em breve vou a Sevilha e daí sigo direta para o Brasil, um sítio muito especial para mim. O produtor do meu último trabalho é o Nelson Mota, há um dueto com o Djavan e colaborei com o Ivans Lins e outros grandes compositores brasileiros. Por isso, vão ser dias muito intensos.

- Faz também questão de partilhar o seu tempo abraçando causas sociais. Alguma em particular que queira destacar?

Sempre que me pedem, tento cantar para associações. Defendo que todos os artistas deviam apoiar o maior número possível de entidades que necessitam de ajuda. Sou madrinha da ‘Novo Futuro’, uma associação de apoio a crianças provenientes de famílias de risco, e, recentemente, fiz campanhas para a Associação Portuguesade Apoio à Vítima, para o cancro da mama e para a Cruz Vermelha.



Cuca Roseta turns 34 on December 2. She is considered one of the best fado singers of the new generation. Applauded by critics and with a loyal following across borders, she reveals in an interview he granted me recently, this passion she has with fado, the social causes that she embraces and the time when she cried on stage.

António Dias: How does a girl who was part of a choir at school, heard classical music and opera at home, was a lead singer in a Portuguese pop band, heard rock among friends in youth, and finishes working with a tango producer and singing fado?
Cuca Roseta: Well, that makes me believe that the destiny really really wanted me follow this path. Nothing seemed to point to fado. Although, I always liked bed time stories, to write, to look at the world with a romantic and nostalgic perspective, and when I heard fado for the first time I recognized that this was the musical style in which I reviewed myself more. It's almost a form of sung declamation of poetry that brings to the surface deep feelings of melancholy, longing and love. When I sang in 'Toranja' the environment and the marketing was different, the business was another story. But now, I close my eyes and the feeling springs from my heart. The lyrics convey something very intimate and close to my experience, my truth, so I much like to associate fado to the word truth.

- When you released the first CD, with Gustavo Santaolalla (winner oftwo Oscars) as producer, there was a well outlined plan to conquer new markets and even go to countries where fado was never sung before. Was the bet won?
No doubt! In Georgia, for example, it was a sensational experience. They rose twice in the same concert to acclaim me. It was one of the few times that I was thrilled on stage that I cried with emotion. They greatly admire our culture, they say they have a kind of music similar to fado. In Ecuador was the same. There, neither Amalia had gone! Isn’t amazing?

- It must be a huge responsibility to be so young and in addition sing something so deep and still be representative of Portuguese culture in places never before.
In fact it is. We almost are Portuguese ambassadors. It is generally known that out there we are famous by fado and football. So it is important to be one of those personalities that go to other countries and bring some of our culture. It is extremely gratifying to see the public reaction. Some start learning Portuguese and have curiosity about the our country because one day they heard me sing. It's overwhelming.

- Do you find many young people at your concerts?
Yes, even children! What is something strange, because it is said that we need some maturity to understand fado. But I have entire families in front of me and it's exciting to see them enjoy my music and we cannot forget that fado can be very happy and there are a lot of joyful songs. I have mothers who after the shows come to me and admit that buy my CD for their children by their request.

- That's amazing, considering that a decade ago the fado seemed almost dead!
True. I am part of that generation that never interested in this music style. Where I grew up (Cascais) I never listened to that and when I started attending fado clubs, my friends asked me if I had gone crazy. There was a huge prejudice. And thanks to the new fado singers, different styles of each fadista and good themes, fado is reaching the new generations. And this is extremely endearing.

- Are you already preparing the next album?
Most of my energy is now turned to promoting this latest CD. But I already started preparing some songs, to write and to gather some material. It is a very long process that takes almost two years and I want the next job become even better than the previous, more mature.

- One of the places where he will go is Brazil.
Me and the band have a very big tour ahead. We will be in the Netherlands, Belgium, Italy. Soon I go to Seville and then go directly to Brazil, a very special place for me. The producer of my last work is the Nelson Mota, there is a duet with Djavan and I also worked with the Ivans Lins and other great Brazilian composers. So it will be some very intense days.

- You also share a lot of your time embracing social causes. Some in particular you want to highlight?
I try to sing whenever public institutions ask me. I defend that all artists should support the largest possible number of entities that need help. I am Godmother for ‘Novo Futuro’, and recently did campaigns for the Portuguese Association for Victim Support, for breast cancer and for the Red Cross.

Caminhada dura

Though journey








Foi para isto que vim à Madeira: aventura. E é isso que me espera nos seis quilómetros que me separam do pico Ruivo. Estou no miradouro do pico do Areeiro a ganhar coragem para enfrentar a enorme massa de nevoeiro que entope a vista a 1800 metros de altura. O que há para lá do branco das nuvens? O desconhecido. Para mim, pelo menos. Para o Aldónio, um amigo meu que aceitou acompanhar-me no passeio, aquilo já é conhecido: “É pena estar nublado porque a vista daqui é impressionante”. A previsão meteorológica na Madeira é sempre imprecisa. Lá em baixo está de certeza um dia abrasador, mas aqui parece inverno. Mal agasalhados, seguimos em frente: eu, a coitada da minha irmã (que só ainda tem 14 aninhos) e o meu amigo que fez este mesmo percurso uns anos antes. São pouco mais de dez horas numa manhã de agosto mas devem estar menos de 10ºC.  Esfregamos as mãos uma na outra, tiro o casaco para agasalhar a Marta e lá começamos a caminhada.
Depois de nos descolarmos da pousada do pico do Areeiro, a escassos metros existe o miradouro do ninho da Manta só que é impossível vislumbrar o quer que seja. Contornamos o pico das Torres por uma subida íngreme através de uma escadaria escavada na rocha e posteriormente uma descida. Devemos andar cerca de 500 metros, embora com a névoa cerrada à nossa volta perdemos a noção do espaço. Onde estivemos? Para onde vamos? Ninguém sabe.
Algum tempo depois desta verdadeira prova de esforço, deparamo-nos com uma descida exigente. Parece algo fácil, mas os degraus sucedem-se a um ritmo interminável. Perdi a conta a eles e só penso em alcançar o fim. O vento sopra forte nas encostas voltadas a norte e os 10ºC parecem agora menos 5ºC! O vento e as gotículas de água tornam maior a sensação de frio. Ao fim de meia hora estamos de cabelo molhado e pestanas humedecidas. As nossas vozes ecoam pelas paredes das montanhas. Somos só nós e a natureza.
Ao fim de uma hora, o meu receio de que este venha a ser um dia desolador acaba por desaparecer. Aos poucos, o nevoeiro dissipa-se e alguns raios de sol conseguem furar pelo manto branco circundante. Conseguimos vislumbrar os primeiros vales e a vista começa a encher a alma. Sem darmos por isso, a paisagem fica desimpedida. É emocionante a passagem sobre um dique basáltico que separa as cabeceiras das ribeiras da fajã da Nogueira e do Cidrão e a meio da viagem conseguimos vislumbrar o pico do Gato com os seus 1780 metros de altitude e escarpas a desafiar os alpinistas.
Um túnel, com cerca de 100 metros de comprimento e dois metros de altura, entra pelas entranhas daquela serra. À saída do túnel deparamo-nos com a cabeceira da ribeira da fajã da Nogueira e, mais a jusante, pode-se apreciar as achadas e os lombos de São Roque do Faial. Caminhar, em certos locais pode assustar tal é a pequenez do espaço que sobra para os pés. Há cordas e pontos de apoio, mas é necessário atenção redobrada. Curva após contra curva conseguimos avistar o pico Grande e, ao fim de algum tempo, vislumbramos, a oeste, as torres eólicas semeada ao longo do paúl da Serra.
Entretanto, surge-nos pela frente um segundo túnel, com cerca de 200 metros, o mais extenso dos cinco túneis deste percurso, que percorre as entranhas do pico das Torres. Ao penetrar no pico das Torres deixamos para trás a ribeira do Curral e, à saída, já com o céu praticamente limpo, está a ribeira Seca do Faial. A temperatura começa a subir e deixa de ser necessário ter casaco. Completamos o resto do percurso de maga curta. A mais difícil, aliás. A parte final da ida, antes de chegar à casa de abrigo, é sempre a subir, mas com o sol a atingir o seu auge, as paisagens brilham à nossa volta. Nas encostas a este ou a oeste vemos vales profundos e cumes deslumbrantes. O vale da ribeira Grande de São Jorge ou as achadas de Santana são dos locais mais belos da viagem. Perto da casa de abrigo do pico Ruivo encontra-se a vereda para a achada do Teixeira e é onde se encontra o "Homem em Pé", uma formação basáltica que se assemelha à forma de um homem em pé. O percurso, com cerca de três quilómetros, tem um piso bom e regular e não chega a uma hora de caminho. O problema é que é sempre a subir.
Nos troços com abismos, a vereda normalmente está protegida mas, por vezes, a varanda poderá encontrar-se destruída e não ter sido imediatamente reconstruída. O céu limpo permite também apreciar um pouco mais a fauna e flora. Há violetas da Madeira e muitas urzes. Consigo vislumbrar aqui e acolá algumas andorinhas da Serra. E à medida que nos aproximamos do fim, o engarrafamento de caminhantes é maior. Somos nós e algumas dezenas de pessoas com o mesmo a estafado, suado, cansado mas pasmado com as vistas. Forçamos o último troço até ao topo do pico Ruivo. Cada passo começa a ser uma tortura. Estamos há quase três horas a andar e eu só pensava no percurso de regresso. Todas as preocupações esfumam-se quando chegamos ao topo da serra. Quase dois quilómetros acima do nível do mar e o mundo a nossos pés. O mar, os vales, pequenas povoações e até o pico do Areeiro, a sul, que nos parece tão perto. “Estás a ver, Marta?”, digo apontando para o horizonte, “agora vamos ter que andar tudo para trás”. Eu acho, pelo olhar que ela me lançou, que não ficou lá muito contente.


This was the reason why I came to Madeira: adventure. And that's what awaits me in the six kilometers ahead. I'm on the lookout Pico do Areeiro to gain the courage to face the enormous mass of fog that clogs the view 6000 feet high. What's beyond the white clouds? The unknown. For me, at least. For Aldónio, a friend of mine who agreed to accompany me on this day journey, it’s nothing new: "It's a shame to be so cloudy because the view from here is impressive". The weather in Madeira is always unpredictable. Down the coast, it’s certainly a scorching day, but here it seems almost a winter day. There are hundreds of tourists who do this trip every day. Today it’s my turn, toghether with my poor sister (who his only 14 years old) and my friend who made this same trip a few years earlier. It’s 10 am in a August day but it must be less than 50 ° F. We rub our hands together, I take my coat to wrap Marta with and then we were ready to began our walk.
After we take off from Areeiro, a few meters ahead there’s Manta's Nest viewpoint, although it is impossible to glimpse anything at all. We skirted Pico das Torres up a steep climb through a staircase carved in the rock and then a descent. We must walk about 1600 feet, although with thick mist around us we lose track of space. Where have we been? Where are we going to? Nobody knows.
Sometime after this true stress test, we are faced with a demanding descent. Something seems easy but the steps succeeding to an endless rhythm. Lost count them and just think of reaching the end. The wind blows hard on the slopes facing north and 10 ° C seem now less 5 ° C! The wind and the water droplets turn the cold even more colder. After half an hour and our hair and eyelashes are wetted. Our voices is echoed off the mountains walls. It's just us and nature.
After an hour, my fear that this will be a disappointed day just disappear. Gradually, the fog dissipates and some sun rays pierce and illuminate the surrounding white robe. Gradually we can glimpse the first valleys and the full beauty of the landscape and the view begins to fill our eyes. Before you know it the air is clean again. It's exciting to pass over a basaltic dike that separates the headwaters of the streams of Fajã da Nogueira and Cidrão and, in the middle of the trip, we could glimpse the Pico do Gato at 5500 feet high and cliffs that challenge climbers.
A tunnel about 328 feet long and six feet high enters the bowels of the mountain. After leaving it we find the Fajã da Nogueira and the loins of São Roque do Faial. Some paths can be very narrow, which can scare a little bit. There are strings and support points, but there’s a need for extra attention. Curve after curve we find Pico Grande and, after some time, we glimpse, west, the wind towers sown over Paúl da Serra.
There’s second 650 feet long tunnel, the longest of the five tunnels this route, which runs through the bowels of the Pico das Torres. We leave behind Curral’s brook and, as we get out the tunnel, with mostly sunny sky, we view Seca do Faial’s brook. The temperature begins to rise and is no longer necessary the coat. We completed the rest of the journey suffocating with exhaustion. The final part of the trip it’s also the hardest, by the way. It's always up through harsh terrain, but we are surrounded with the most beautiful landscapes though. There are big slopes west, deep valleys and breathtaking summits at east. The valley of river Grande de São Jorge and Santana river are the most beautiful places of the trip.

Near the peak shelter, close do Achada do Teixeira there’s the Homem de Pé, or the standing man, a basalt formation which resembles the shape of a standing man. The route, about two miles long, has a nice, smooth surface and does not reach an hour walk. The problem is that it's always going up. There’s dangerous, although protected, sections of the road, some very destroyed which begs for some attention. The clear sky allows us to appreciate a little more fauna and flora. There are Violet Wood and many other plants and birds. And as we approach the end of the first part of the day, the bottling walkers is higher. Dozens of people with tired sweaty faces accumulates on the same narrow path, but we are all amazed with the views. We forced the last stretch to the top of the Pico Ruivo, each step feels like torture. We're nearly finishing a three hours walk and I start to think about the return journey. However, all the concerns disappear when we reached the top of the mountain. At 6500 feet above sea level we have the world at our feet. The sea, valleys, small villages and to the Pico do Areeiro, at south, where we started the day, seems so close. "You see there, Marta?", I say, pointing to the horizon, "now we have to walk all the way back". I think, by the look she gave me, that she was not very happy.

O que custa é descer

Difficult is to go down






Subir é duro. É uma luta constante contra as leis da física. Pé ante pé, respiração ofegante e o coração a sair-nos do peito. Olho para cima a cada minuto, talvez segundo, à espera que o topo esteja já ali, ao virar da próxima curva. “Falta pouco”, garante o guia. Tenho a sensação de que ouvi “falta pouco” demasiadas vezes na última hora e meia. Eu gosto de andar, a sério. Acho que é a melhor maneira de conhecer o mundo e há sítios que só valem a pena percorrer a pé. É o caso da montanha do Pico, o ponto mais alto de Portugal territorial, situado na ilha do Pico, no arquipélago dos Açores. Porém, para quem faz isto com pouca frequência é uma subida que parece demorar uma eternidade. Mas a paisagem vale o esforço e o final é apoteótico.
Partimos da Casa da Montanha, a 1100 metros de altitude, ao início da manhã, no ponto oficial para o começo do passeio que dura um dia inteiro. É possível escalar os cinco quilómetros de trilho sozinho, até porque o percurso é simples e está marcado com postes de betão. Só que o nevoeiro frequente, os ventos fortes, a chuva repentina, as diferenças de temperatura e a inclinação do terreno aconselham a que se leve alguém com conhecimentos de sobra. Eu ia com uma menor de 14 anos, por isso tive que seguir as regras. Na Casa da Montanha paga-se uma taxa de visita de €2,5, se for através de um circuito turístico já comprado, ou de €10, caso vá sozinho (a). Em troca, é nos fornecido um rastreador GPS. Água, protetor solar, comida e estamos prontos para a aventura.
A subida é feita pelo lado oeste com o porto de Madalena lá em baixo, Faial pelas nossas costas, e, a norte, a ilha de S. Jorge. Tivemos sorte e durante todo o dia só vimos o sol e nuvens esparsas que pintaram o céu e foram importantes para marcar a altitude: não é todos os dias que se vêem as nuvens de cima. A vegetação rasteira, sobretudo de líquenes, arbustos e ervas baixas, permite apreciar ainda mais tudo o que nos rodeia. O mar acompanha-nos ao longo de toda a caminhada e o silêncio também. A calma é surpreendente. Nada mais se ouve a não ser o vazio do ar. Não há carros, motorizadas ou outras pessoas a não ser o nosso grupo de dez pessoas. O cansaço deixa pouco lugar para a conversa que é ocasional e é sempre possível afastarmo-nos e admirar tudo no meio da imensidão da encosta. É sublime. Sentimos, literalmente, que estamos no topo do mundo. A perfeição estética de toda a ilha, que se pode apreciar num passeio de barco, sente-se in loco: as cores dos prados são pontilhados de gado a preto e branco; antigas caldeiras esbatem-se ao longo das encostas, vestígios de tempos turbulentos são como os anéis da terra; e há ainda o contraste entre os dois tons de azul, do céu e do mar, que se separam no horizonte, numa linha perfeita e infinita. Tudo é bonito e deslumbrante. Fazemos pausas para virar as costas à montanha para recuperar o fôlego e olhar à volta. “Estás a ver lá em baixo, Marta?” Aponto para o pedaço de mar que separa o Faial do Pico. “Aquele pontinho é o barco que nos trouxe para a ilha. Parece tão pequeno, não é?” Vejo a minha irmã sorrir e sinto-me feliz por estar ali com ela, em paz, a mostrar-lhe como o mundo é grande.
As passadas vão se tornando mais lentas e sofridas. Há algumas desistências, gente que, por força da idade, é obrigada a reconhecer o cansaço. “É preferível que assim seja”, confidencia-me o guia, homem experiente, de 45 anos, que faz isto todas as semanas. “A descida é muito pior e há pessoas que simplesmente não aguentam a caminhada. E eu prefiro transportar a sua irmã às costas do que uma senhora de 80 quilos”. Fico ali por um momento a vê-los voltar para trás. Lamento a decisão e digo adeus enquanto o guia passa por mim: “vá, falta pouco”. Juro que começo a odiá-lo.
Ao fim de quase três horas lá chegamos à cratera do vulcão, quase 2300 metros acima do nível do mar e a quase cinco quilómetros do fundo do oceano. A zona tem quase 700 metros de diâmetro e é composta sobretudo por rocha sendo usada como ponto de abrigo para campistas que decidem passar a noite no topo da montanha. A experiência, dizem, é mais completa porque é possível apreciar o pôr do sol e o amanhecer de uma forma surpreendente.


Falta cumprir o último troço: subir o Piquinho ou Pico Pequeno, uma pequena elevação de 70 metros de altura que brota da cratera do lado este e que é mais recente do ponto de vista geológico. É como que a cereja no topo do bolo. Após uma pausa e de barriga cheia, retomamos a caminhada. A partir daqui é preciso escalar rocha e ter cuidado com as pedras que se podem soltar sob os pés de quem vai mais acima. Começam a surgir pequenos pontos de saída de calor e entre algumas reentrâncias emanam nuvens de vapor de enxofre. O vulcão ainda está oficialmente ativo e, de acordo com os entendidos, é certo que, no futuro, toda a montanha irá abater com uma enorme erupção. Foi o que terá acontecido a todas as ilhas, antigos vulcões, que abateram e formaram ilhas. O Pico, com o seu cume afiado espera pela implosão que o faça ficar mais parecido com as suas congéneres. Esperemos, porém, que ainda falte muito para que isso aconteça.




E depois de apreciar tudo aquilo há que regressar, agora sempre a descer. Só pode ser canja, certo? Não, errado. Quem disse que “para baixo, todos os santos ajudam” nunca subiu ao Pico de certeza. Com os músculos já cansados da subida, o corpo começa a dar parte de fraca. Os quadríceps suportam o impacto do peso do corpo e a meio do percurso começa a ser complicado andar. Surgem dores em zonas onde não sabia que existiam músculos e que nunca me tinham doído antes. Será da velhice? Caramba, só tenho 38 anos! Depois de quase seis horas a apreciar o mar, o verde da paisagem, o azul do céu e o silêncio da montanha, já nada me anima. A minha irmã saltita de rocha em rocha, leve como uma pena. Sim, deve ser da idade, admito. O guia passa por mim quando aproveito para recuperar forças, me agacho, ponho as mãos nos joelhos e inspiro profundamente. “Vá, falta pouco!”. Ele só pode estar a brincar comigo.

To go up is very difficult. It is a constant struggle against the laws of physics. Tiptoed, hard breathing and feeling almost like the heart is pumping out of the chest. I look up every minute, maybe second, waiting for the top to be there, just around the next bend. " We’re almost there", says the guide. I have a feeling that I heard "almost there" too often for the last hour and a half. I like to walk, seriously. I think it's the best way to see the world and there are place only worth it to go on foot. It’s the case of Pico Mountain, the highest point in Portugal, situated on the island of Pico in the Azores archipelago. But for those who do it infrequently is a climb that seems to take forever. But the landscape is worth the effort and the end is an apotheosis.
We start from the House of the Mountain, 3600 fett above sea level, in the early morning, the official point to the beginning of the tour that lasts an entire day. It is possible to climb the five kilometers of rail alone, because the route is simple and is marked with concrete poles. But the frequent fog, strong winds, sudden rain, the temperature differences and the slope of the land advise us to take someone with plenty of knowledge. I went with a minor under 14 years, so I had to follow the rules. In the House of Mountain it’s necessary to pay € 2,5 fee, if through a tourist circuit already purchased, or €10 fee if you go alone. In exchange, it is provided a GPS tracker. Water, sunscreen, food and we are ready for adventure.
The climb is made by the west side with Madalena harbor below, Faial behind our backs, and, to the north, the island of St. George. We were lucky and all day we only saw the sun and scattered clouds that painted the sky and were important to mark the altitude: it is not every day that we see the top of clouds. The undergrowth, especially lichens, shrubs and low herbs enables us to appreciate even more the landscape. The sea accompanies us throughout the walk and the silence too. It is so quiet and amazing. Nothing is heard except the empty air. There are no cars, motorbikes or other people unless our group of ten. Fatigue leaves little room for conversation which becomes very casual and you can always move away and admire all the immensity. It is sublime. We feel, literally, that we are on top of the world. The aesthetic perfection of the whole island, that you can enjoy in a boat ride, it is felt here: the colors of the meadows are dotted with black and white cattle; old boilers are blurred along the slopes, traces of turbulent times are like the rings of the earth; and there is there’s always the contrast between the two shades of blue, sky and sea, which are separated on the horizon in a great, infinite line. Everything is beautiful and stunning. We stop several times, just to turn our back to the mountain to catch our breath and look around. "You see down there, Marta?" I point to the piece of sea that separates the Faial from Pico. "That speck is the boat that brought us to the island. It seems so small, isn’t it? "I see my sister smiling and I feel happy to be there with her, alone, to show her how big is the world.
The more we climb, the slower and painful becomes the steps. There are some dropouts, people who by virtue of age, are required to recognize fatigue. "It is better to do so" admits the guide, experienced man, 45, who does this every week. "The descent is much worse and there are people who simply cannot stand until the end. And I'd rather carry your sister on my back than an 176 pounds woman”. I stand there for a moment to see them turn back. I’m sorry for the decision and I say goodbye while the guide returns to the path: "We’re almost there". Are we really? I have my doubts.
After nearly three hours we reach the crater of the volcano, almost 7500 feet above sea level and almost 16000 feet from the ocean floor. The area is nearly half a mile in diameter and is composed mainly of rock and is used as a resting point for campers who decide to spend the night there. The experience, they say, is more complete because you can enjoy the sunset and sunrise in a surprising way.
There’s the last bit: Piquinho or Pico Pequeno, a 229 feet high rock rise that comes out from the east side of the crater which is newer in a geological point of view. It's like the icing on the top of the cake. After a break and a full stomach, we resumed walking. From here you must climb rock and be careful with the stones that can drop under the feet of those who go up. Sometimes, between rocks, emerges small heat outputs of heat and among some recesses there’s sulfur emanating in vapor clouds. The volcano is still officially active and, according to the experts, it is certain that in the future, the whole mountain will blow up with a huge eruption. That's what has happened to all the other eight islands, ancient volcanoes, which were swept away and formed the  islands. Pico, with its sharp ridge, is still waiting for an implosion so that she can become more like their counterparts. Hopefully, though, we hope it will take several millions of years.
And after enjoying all that it is time to return, now it is always down. It can only be a piece of cake, right? No, wrong. With the muscles tired of the climb, the body begins to weaken. The quadriceps support the impact body weight and in the middle of the route begins to be complicated to walk. Pain arise in areas where I never felt before and in muscles I did not know that existed. Is it because I’m old? Heck, I’m only 38! After nearly six hours enjoying the sea, the green landscape, the blue sky and the silence of the mountain, nothing excites me anymore. My sister hops from rock to rock, light as a feather. Yes, it must be an age problem. The guide passes by when I take a moment to regain strength, I crouch, put my hands on my knees and take a deep breath. "We’re almost there” he says. He can only be kidding me.

Frango português

Portuguese style chicken


Não há nada como estar no estrangeiro e descobrir, no canto mais insuspeito, um pedaço de Portugal: uma mercearia com bacalhau no centro de Londres; um café com bitoques, em frente da estação de comboios do Luxemburgo; um pastel de nata, numa pastelaria na quinta avenida, em Nova Iorque; ou frango no churrasco, no Nando’s, em Joanesburgo, África do Sul.
Estou a subir a Pitt Street, em Sidney, em direcção à baía. É quase meia noite. Aterrei ao final da tarde e só ainda tive tempo de pôr as malas no quarto. A cabeça ainda está aos solavancos depois de quase 24 horas em trânsito entre Londres, Singapura e a maior cidade australiana. Estou apenas a fazer o primeiro reconhecimento à selva urbana. Há muito de semelhante com uma qualquer cidade norte-americana: os automóveis Chevrolet; os arranha céus envidraçados que tapam as estrelas; muita gente loura; e as ruas em quadrícula, que dão um jeitaço do caraças! Ultrapasso transversais sucessivamente, sempre puxando pelos sentidos. Há cheiros, ruídos, pormenores que quero reter para sempre.
No cruzamento com a Liverpool Street estaco ao sinal vermelho. Tenho tempo para apreciar a paisagem circundante, ouvir os sons, as línguas que se cruzam, sentir a temperatura do hemisfério sul e enjoar com os cheiros de comida rápida, tubos de escape e perfumarias asiáticas. Nem tudo pode ser perfeito. Estou super emocionado por estar a concretizar um desejo de infância. Devo ter o aspeto de uma criança quando desembrulha as prendas de Natal. Olho para a direita e depois para a esquerda e… depois…. pimba! A primeira surpresa da noite. O letreiro com um galo inspirado no congénere de Barcelos chama-me a atenção e logo por baixo a marca Ogalo com o sugestivo slogan “portuguese style chicken and burguer” sobressai sob o fundo amarelo. Esbugalho os olhos e leio o placard várias vezes e deixo de prestar atenção aos semáforos, às pessoas à minha volta, aos barulhos e buzinadelas. Em vez de seguir em frente, viro hipnotizado em direcção ao restaurante de comida rápida agora com ar de criança intrigada. E não é que descubro que este é apenas mais um dos espaços de uma cadeia de restaurantes que vende comida rápida portuguesa na Austrália e Nova Zelândia. Mas…. espera lá, existe uma espécie de Mcdonald’s à portuguesa?
Não resisto a entrar e percorrer a sala até ao balcão. Beef prego, chiccken prego burguer ou o pinegalo burguer são algumas das opções. O aspeto é idêntico a tantos outros do género e o cheiro é praticamente o mesmo. Desengane-se quem espere encontrar frango da guia. Ainda assim, comecei a salivar. Cedo à tentação e faço um pedido. A empregada asiática distribui os vários pacotes pelo tabuleiro que eu pego e levo até à mesa. Este é um momento memorável. Desconhecia que o frango era considerado um alimento tão importante na gastronomia ao ponto de ser mote para uma cadeia de fast food. Bom… sabia que existia o Nando’s que até é um sucesso em diversos países, mas esta nova marca foi uma surpresa. O que mais me espanta nem é a escolha do frango como tema de um franschinsing gastronómico: fazer bacalhau à Braz deve ser mais complicado vender a gente habituada a outros paladares. Para mim, o mais peculiar é que o conceito não é exportado do país de origem ao contrário da Mcdonald’s, da baguete, do tango ou da vodca. É preciso percorrer metade do globo para descobrir um negócio criado por um português com cheiro a capitalismo. É incrível como sabemos tão pouco somos nós próprios.


There's nothing like being abroad and discover in the most unsuspected corner, a piece of Portugal: a grocery store with cod in central London; a coffee with bitoques in front of the Luxembourg train station; a Portuguese custard tart in a pastry on Fifth Avenue in New York; or chicken barbecue in Johannesburg’s Nando's.
I'm up the Pitt Street in Sydney, towards the bay area. It's almost midnight. I landed in the evening and only had time to put the bags in the room. My head is still bumping after almost 24 hours in transit between London, Singapore and the largest Australian city. I'm just doing the first recognition of the urban jungle. A lot is similar to any American city: the Chevrolet cars; skyscrapers hiding the stars; lots of blond people; and grid streets, which is helps a lot when one comes from Europe! I continue surpassing streets over and over again, always pulling the senses. There are odors, noise, details that I want to hold forever.
At the junction with Liverpool Street I stop on the red light. I have time to enjoy the surrounding views, hear the sounds, the different languages​, feel the temperature of the southern hemisphere and get a little sick with the smell of fast food, exhaust pipes and Asian fluff. Not everything can be perfect. I am so thrilled to fulfill a childhood dream. I must look like a child when unwraps Christmas gifts. I look to the right and then to the left and ... then .... pauch! The first surprise of the night. There’s a sign with a cock inspired by the counterpart of Barcelos that called my attention and just below the Ogalo brand the suggestive slogan "portuguese style chicken and burger" stands under the yellow background. Open my eyes and read the placard several times and forget the traffic lights, people around me, the sounds and honks. Instead of moving on, I turn hypnotized towards the fast food restaurant with a intrigued look on may face. Not only that, I find that this is just one of the several spaces of a restaurant chain that sells Portuguese fast food in Australia and New Zealand. But .... wait, there is a Portuguese version of McDonald's?

I can not resist getting in and cross through the room up to the counter. Beef prego, chiccken prego burguer ou o pinegalo burguer are some options. Prego for the non Portuguese is a type of sandwich with meat inside. The appearance is similar to so many others fast food chains and the smell is pretty much the same. But if you ever tasted Portuguese chicken here you won’t find the real deal. I began to salivate though. I order and a Asian maid distributes the various packages in the the board that I pick up and take to the table. This is a memorable moment, dear reader! I was unaware that chicken was considered such a Portuguese specialty to the point of having a fast food chain of their own. Well ... I know that there’s Nando's, a big success in many countries. But Nando’s it is not a fast food chain. This new brand was a surprise to me. What amazes me the most is not the choice of chicken as a gastronomic theme: cod, much more appreciated among my Portuguese fellows, must be more complicated to sell in some parts of the globe. To me, what is incredible is that the concept is not exported from the country of origin like McDonald's, the baguette, tango or vodka. You need to cross half the globe to find a capitalistic business created by a Portuguese. It's amazing how little we know about ourselves.

As piscinas naturais da Madeira

Madeira's natural polls



Estão 27º C e está um dia de sol esplêndido na Madeira. Estou na praia da Formosa, com vários complexos hoteleiros por trás de mim e o mar a estender-se para sul. Para onde quer que olho só vejo calhaus. Tento ser positivo: "Isto há de fazer bem às costas e massaja os pés". É provável que nem toda a gente tenha a mesma força de coragem que eu porque quase toda a praia está vazia, apesar de ser um dia de semana de agosto. "A maioria dos turistas prefere ficar nas piscinas dos hotéis", diz-me um amigo. Está percebido. Por ali me aguento até começar a ficar com nódoas negras pelo corpo todo. "Vamos dar uma volta?". O meu amigo sorri. Percorremos o paredão em direção a este e atravessamos o túnel que dá acesso à doca do Cavacas e às respetivas piscinas naturais (na foto). Esbugalho os olhos. Mas o que estive eu a fazer nos calhaus?

It's a 80º F sunny day day in splendid Madeira islanda, Portugal. I'm on the Formosa beach, with several hotel resorts behind me and the sea extending to the south. Everywhere I look I see only pebbles. I try to be positive: "This will do well to my back and massages the feet." It is likely that not everyone has the same strength of courage as I because most of the beach is empty, despite being a weekday in August. "Most tourists prefer to stay in the pools of hotels," a friend warns me. It is understood. However, when I start to get bruises all over my body I decide to move on. "Let's take a walk?" I desperately ask my friend. He smiles. We walk on the seawall towards east and go through the tunnel that conects to the other side of the beach, and dock Cavacas  and respective pools (pictured). I open my eyes. But what was I doing in the stones? I'll stay here!

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